4. INTERNACIONAL 25.7.12

1. O MASSACRE NA SALA DE CINEMA
2. UMA DERROTA EM DAMASCO
3. MAIS UM 18 DE JULHO SANGRENTO
4. O CRESCIMENTO NO  DESCULPA

1. O MASSACRE NA SALA DE CINEMA
Um atirador mata doze pessoas na estreia de filme do Batman, no Colorado. Relacionar a tragdia  fico, porm, s deixar o assassino ainda mais satisfeito.

 0h01 da sexta-feira 20, numa das salas do complexo Century 16, na cidade de Aurora, nos arredores de Denver, capital do estado americano do Colorado, comeou a estreia do filme Batman  O Cavaleiro das Trevas Ressurge, o ltimo da trilogia sobre o super-heri dirigida pelo cineasta Christopher Nolan. Com ingressos esgotados, na sesso havia dezenas de fs fantasiados como personagens do universo do homem-morcego. Pouco mais de trinta minutos aps o incio da exibio, os espectadores viram algo que inicialmente pensaram se tratar de parte de uma ao de marketing. Pela sada de emergncia entrou um jovem alto, com os cabelos pintados de vermelho, todo vestido de preto e usando colete e cala  prova de balas, capacete e mscara de gs. O homem jogou duas bombas de efeito moral, provavelmente gs lacrimogneo, em direo a uma plateia formada por adultos, jovens e crianas no mesmo momento em que a tela mostrava uma cena de tiroteio. Foi s quando ele comeou a disparar tiros reais que os espectadores perceberam tratar-se de um manaco. Ele estava armado com um fuzil de assalto, uma escopeta e uma pistola. O massacre durou cinco minutos. O atirador parou em frente  tela e comeou a disparar contra as pessoas. S parava para recarregar a arma. As vtimas se arrastavam pelo cho e sobre as cadeiras, numa tentativa desesperada de se salvar. Segundo as testemunhas, o assassino no disse uma palavra. Algumas balas atravessaram a parede e uma delas atingiu uma pessoa na sala ao lado. A polcia chegou um minuto e meio depois da primeira chamada de emergncia. O assassino foi preso junto a seu carro, no estacionamento do cinema. At o fim do dia, a polcia tinha confirmado que 70 pessoas haviam sido atingidas pelos disparos ou se feriram na fuga: destas, doze morreram.
     O atirador chama-se James Eagan Holmes, tem 24 anos e  natural do Tennessee. Ele se mudou para Aurora em 2011 para cursar ps-graduao em neurocincia na Universidade do Colorado. No ms passado, porm, abandonou o curso. Duas semanas antes do massacre, ele fez um perfil num site de sexo casual. Depois de ser preso, Holmes contou  polcia que tinha uma bomba em seu apartamento. Segundo relato do vizinho, havia uma msica tecno tocando durante toda a noite na residncia de Holmes. A tentativa de criar um espetculo montando uma armadilha para a polcia com direito a trilha sonora  e o fato de Holmes ter pintado o cabelo (uma referncia ao personagem Coringa?), usado uma mscara de gs (para se parecer com outro vilo, Bane?), alm,  claro, de ter escolhido matar os espectadores de um filme de ao  prontamente fez reiniciar a eterna discusso sobre a influncia da indstria do entretenimento nos jovens.
     O Cavaleiro das Trevas Ressurge  um filme sombrio, pessimista, violento  mas sua bssola moral aponta de forma irrepreensvel para o norte verdadeiro. Em todos os trs episdios, um mesmo tema est em jogo: qual a medida justa para a reao de uma sociedade aos agentes que desejam reduzi-la ao caos e  violncia? Pode-se justificar uma resposta de intensidade e natureza comparveis? Ou estaria assim essa sociedade irmanando-se aos malfeitores que a ameaam?  uma terrvel ironia que Holmes tenha escolhido promover seu massacre durante a exibio de um filme que  um claro indiciamento dos indivduos que, em nome das injustias reais ou imaginrias sofridas, sequestram o ideal civilizado do direito  reparao para cometer barbaridades. O fato  que, sejam quais forem as alegaes do assassino, h um mtodo na sua loucura, ou na do atirador que, em 1999, matou trs espectadores e feriu outros quatro em uma sesso de Clube da Luta em So Paulo. No se registram episdios como esses durante sesses de filmes de Woody Allen, ou de comdias romnticas com Jennifer Aniston, porque nesses casos os criminosos seriam expostos em toda a sua crueza. Os filmes escolhidos como pano de fundo para o horror que eles perpetram contm violncia (ainda que a condenem, como Batman) porque assim se deflagra imediatamente uma discusso exculpatria: seria, ento, o entretenimento violento o responsvel pelo comportamento violento, ou ao menos seu tributrio? Mas engajar-se nesse pretenso debate no  s improdutivo. Equivale, na verdade, a validar a afrontadora pea de defesa proposta pelo criminoso: a de que a culpa no pertence a ele, mas  sociedade e s suas distores, e que  ento cabvel ou esperado que esta sofra as consequncias de seus atos e divida com ele, o homem armado, a autoria deles. 


2. UMA DERROTA EM DAMASCO
O atentado que matou quatro membros da cpula militar da Sria e os combates no centro da capital reduzem as chances de sobrevivncia do regime de Bashar Assad.

     O regime de Bashar Assad na Sria, que parecia irrefrevel em sua represso aos grupos armados que se formaram na sequncia dos protestos contra o governo iniciados em maro de 2011, sofreu na semana passada sua primeira grande derrota. Aps trs dias de combates entre o Exrcito e os rebeldes, que lograram tomar bairros inteiros da capital, Damasco, um atentado a bomba atingiu o prdio da Segurana Nacional, matando quatro membros do alto escalo do governo: o ministro da Defesa, Daoud Rajha, o cunhado de Assad, Assef Shawkat, o general Hassan Turkmani, ex-ministro da Defesa, que atuava como conselheiro do ditador, e o chefe da segurana nacional, Hisham Ikhtiyar, que havia escapado de uma tentativa de envenenamento em maio. Outros integrantes da cpula responsvel pela estratgia do regime para esmagar as foras rebeldes ficaram feridos, entre eles o ministro do Interior, Mohammed Shaar. O ataque, que o governo diz ter sido obra de um homem-bomba, foi reivindicado pelo Exrcito Srio Livre, formado por civis e desertores das tropas oficiais. Localizado no centro da cidade, o prdio da Segurana Nacional s era menos protegido do que o palcio presidencial. O atentado visou um encontro do gabinete de segurana do governo. Por no ter danificado o edifcio por fora, a verso mais aceita  que um segurana ou outra pessoa com acesso livre ao local tenha plantado uma nica bomba, potente, que foi detonada a distncia, por controle remoto.
     O fato de os combatentes anti-Assad j estarem dentro da capital e de serem capazes de infiltrar um terrorista em um dos locais mais sensveis do regime pode significar o ponto de virada da guerra civil que j deixou mais de 17.000 mortos e 200.000 refugiados. A derrocada de Assad pode ainda se arrastar por meses, mas  luz dos acontecimentos recentes parece inevitvel. Entre eles est a desero do general Manaf Tlass, o oficial de maior patente a abandonar o Exrcito srio. Tlass era amigo de infncia de Bashar Assad e membro de uma das poucas famlias da maioria sunita do pas que sempre foram leais ao regime, controlado por alauitas, uma minoria religiosa. A questo agora  saber se Assad vai optar por uma guerra de vida ou morte pelo poder, j que um acordo poltico com os rebeldes  improvvel, ou se vai largar o osso e correr para o exlio. A hiptese de negociar com o regime nem sequer foi mencionada pelo Exrcito Srio Livre e pelos lderes opositores refugiados em outros pases. Um Assad desesperado com a queda iminente pode ignorar o risco de uma interveno internacional e decidir usar todas as armas  sua disposio, inclusive o arsenal qumico, contra o seu prprio povo, diz o historiador americano James Gelvin, especialista em Oriente Mdio da Universidade da Califrnia.
     Os cenrios possveis para uma Sria ps-Assad no so muito mais animadores do que a situao atual. O mais bvio deles prev uma transio violenta de poder, com uma srie de atos de vingana entre os grupos religiosos do pas. Os muulmanos sunitas, que representam dois teros da populao e uma parcela ainda maior dos combatentes anti-Assad, j no perdem oportunidade de fazer com os civis alauitas o mesmo que as milcias do governo fazem com suas famlias: torturas e execues sumrias. Se houver um vcuo de poder no pas, o acerto de contas tender a se tornar ainda mais descontrolado. A fragilidade da oposio, que no tem um ncleo homogneo, reduz as perspectivas de formao imediata de um governo conciliador. Os cristos, que correspondem a 10% da populao, esto divididos em relao ao apoio a Assad. No momento em que os sunitas virarem a mesa. Contudo, eles vo ter de correr para o lado mais forte  algo difcil de conseguir se o novo governo for dominado por islamistas. A transio na Sria poderia ser facilitada, num cenrio mais otimista, com a ajuda da comunidade internacional. Outro, mais pessimista, prev uma fragmentao da Sria, com os alauitas refugiando-se em uma rea montanhosa do pas, com o auxlio do Ir, aliado de Assad. A desintegrao territorial abriria espao para grupos terroristas como a Al Qaeda e poria em risco o j tnue equilbrio regional. O grupo xiita Hezbollah, do Lbano, a Rssia e o Ir no querem perder influncia em um pas estratgico como a Sria. At Israel, inimigo de Assad, teme a mudana. Afinal, as fronteiras entre os dois pases esto tranquilas desde 1973, e qualquer desestabilizao nesse status quo, como o surgimento de um regime sunita radical, representa uma ameaa.
     O ditador Bashar Assad apareceu na TV estatal na quinta-feira passada, um dia depois do atentado em Damasco, dando posse ao novo ministro da Defesa, Fahad Freij. Mas os moradores de Damasco, at recentemente imunes aos horrores dos combates entre governo e rebeldes, acreditam que Assad na verdade fugiu para Latakia, reduto dos alauitas no oeste do pas. Nas redes sociais, os opositores repetem que Latakia ser a Sirte de Assad. Sirte foi a cidade onde o ditador lbio Muamar Kadafi resistiu at ser capturado, torturado e morto a tiros, em 2011. Espera-se que a selvageria presenciada na Lbia no ocorra na Sria quando o poder mudar de mos. Mas Assad e os alauitas tm motivos para se preparar para o pior.


3. MAIS UM 18 DE JULHO SANGRENTO
     As terrveis lembranas do atentado terrorista ao prdio de um centro israelita em Buenos Aires, ocorrido em 18 de julho de 1994, no qual 85 pessoas morreram, foram reavivadas na semana passada, no mesmo dia do ano, na Bulgria, quando um homem-bomba explodiu um nibus de turistas israelenses no aeroporto da cidade de Burgas, no litoral do Mar Negro. Sete pessoas morreram no ataque, sendo cinco israelenses, o motorista que dirigia o nibus, blgaro, e o suicida, ainda sem identidade confirmada. O governo da Bulgria desmentiu a verso publicada pela imprensa do pas que afirmava que o autor do atentado seria um sueco de origem argelina que esteve preso em Guantnamo. Segundo as autoridades, o terrorista teria 36 anos e estava no pas havia poucos dias. As imagens das cmeras de segurana do aeroporto mostram o possvel suspeito. Ele tinha cabelos longos e vestia uma camiseta azul, bermuda e tnis branco. Nas costas, carregava uma mochila preta volumosa. As vtimas israelenses vinham de Tel-Aviv e tinham acabado de chegar ao pas para passar frias. Tal como no atentado ocorrido na Argentina, acredita-se que o grupo terrorista Hezbollah, que age no Lbano, esteja por trs da ao, embora nenhum grupo tenha assumido a sua autoria. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, acusou o Ir de ter orquestrado o ataque por meio do Hezbollah. A tenso entre Jerusalm e Teer, que j era grande nos ltimos meses por causa da suspeita crescente de que os aiatols esto a ponto de construir uma bomba atmica, tende a se intensificar. S neste ano, houve outras trs tentativas de ataque contra israelenses no exterior, duas delas com envolvimento comprovado de iranianos. Teer dificilmente abandonar sua inteno de desestabilizar a regio, especialmente agora que um de seus maiores aliados, o regime srio de Assad, est balanando.


4. O CRESCIMENTO NO  DESCULPA
Um novo estudo revela que a China alcanou a Europa em emisses per capita de carbono para produzir energia.

     Os chineses, cuja renda per capita no chega  metade da dos brasileiros, esto poluindo como se j fossem ricos. Segundo um estudo divulgado na semana passada e realizado pela Comisso Europeia em conjunto com a Agncia Holandesa de Avaliao Ambiental, cada chins emite, em mdia, 7,2 toneladas de gs carbnico por ano como resultado da queima de combustveis fsseis. Os europeus produzem 7,5 toneladas do gs do efeito estufa por pessoa. Isso representa uma queda de 18% em relao a duas dcadas atrs. Na China, houve um aumento de 227% no mesmo perodo. Em nmeros absolutos. o pas j era o maior emissor de gs carbnico. um dado no muito surpreendente considerando-se que a China concentra em seu vasto territno um quarto da populao mundial. J o fato de a poluio per capita do pas asitico ser quase igual  europeia  preocupante, porque os chineses tm um padro de consumo muito mais baixo. Isso significa que o impacto ambiental do crescimento econmico da China supera em muito os ganhos da populao com a produo de riqueza.
     O governo chins chegou a estabelecer metas de reduo das emisses, mas pelo menos trs fatores jogam contra. O primeiro  a importncia da indstria pesada, que demanda muita energia, na economia nacional. O segundo  o fato de o pas ter a terceira maior reserva mundial de carvo mineral  uma matria-prima barata para a produo de energia, e altamente poluente. O terceiro  o carter autoritrio da hierarquia administrativa na China. Pressionadas pelo comando central do Partido Comunista para conseguir desempenhos econmicos estratosfricos, as autoridades provinciais no tm muito escrpulo ao aprovar indstrias e usinas. Quando a populao local se ope a um projeto por temer danos ao ambiente,  reprimida de maneira violenta, como ocorreu no incio deste ms em Shifang, durante um protesto contra a construo de uma refinaria. Como resultado dessa postura, alm do ar das grandes cidades, dois teros dos rios e lagos do pas esto poludos. Na extinta Alemanha Oriental, os primeiros cidados a se organizar para fazer oposio  ditadura comunista estavam indignados com os poluentes qumicos lanados no Rio Saale. Regimes autoritrios so um veneno para a natureza. 

O AUMENTO DAS EMISSES NA CHINA
Em toneladas de gs carbnico per capita
1990: 2,2
2011: 7,2
Aumento de 227%

